Carlinhos Vergueiro
Carlinhos Vergueiro é um cantor, compositor, produtor musical e grande amigo de Adoniran nos contou como foi a vida ao lado desse grande artista brasileiro e como ele o ajudou em sua carreira.
João Rubinato nasceu num sábado dia 6 de agosto de 1910. Ouvi dizer que foi no distrito de Joaquim Egidio, próximo a Valinhos, onde foi registrado.
Com 14 anos seguiu com os pais, imigrantes italianos, para Santo André.
Foi metalúrgico, entregador de marmita, funileiro, tecelão, vendedor de meias e gravatas, entre outras coisas.
Adoniran Barbosa nasceu em 1935, quando João Rubinato foi contratado pela Rádio Cruzeiro do Sul. Resolveu homenagear dois amigos: Adoniran Alves, que era um funcionário do correio, e Luiz Barbosa, considerado por João Rubinato, o maior cantor de sambas de bossa que ele conheceu.
Começava a carreira artística de um maravilhoso artista brasileiro, sem dúvida nenhuma, o mais identificado com São Paulo.
Adoniran achava que João Rubinato prá samba não era um bom nome. Se ele soubesse que se tornaria ator, talvez tivesse conservado o nome de batismo.
Na década de 40 foi trabalhar como radioator na Rádio Record, onde interpretou com sucesso, tipos criados por Oswaldo Moles, que tiveram grande influência na linha que ele adotaria em futuras composições. No disco “Saudades de Adoniran”, tem um trecho do programa da Rádio Record, “Histórias das Malocas”, onde ele interpretava um tipo que ficou muito popular: o “Charutinho”.
Eu conheci o Adoniran Barbosa através do Pelão (João Carlos Botezelli), produtor dos dois primeiros Lps gravados por ele na década de 70. Ficamos amigos, e essa amizade me revelou outra faceta do mestre: o construtor de brinquedos.
Nos fundos da casa (em Cidade Ademar, bairro perto do Aeroporto de Congonhas-SP) que eu tive o privilégio de frequentar, tinha uma oficina onde ele trabalhava, criando parques de diversões, bicicletinhas, locomotivas, tudo muito bonito e interessante.
No seu segundo Lp, gravado em 1975, Pelão convidou o professor Antônio Candido de Mello e Souza para escrever a contracapa. Foi o texto mais inspirado que eu li a respeito do Adoniran. Essa contracapa foi responsável pelo encontro dos dois (na casa do professor Antonio Cândido no Itaim), numa noite memorável que Pelão e eu participamos.
Em 1978, num boteco chamado Mutamba, na R. Major Quedinho, fizemos nosso primeiro samba: “Bife à Milanesa”, que depois virou “Torresmo à Milanesa”, por sugestão do Adoniran.
Esta música me deu a oportunidade de apresentar-lhe a Clementina de Jesus. Fernando Faro nos convidou para participar da faixa em que a Clementina cantaria o Torresmo à Milanesa, num disco muito bonito que ele produziu. Foi uma honra, uma alegria. Depois disso, Clementina e Adoniran fizeram vários shows juntos, e eu participei de alguns.
Nossa segunda música, Minha Nega, começou num restaurante na R. Turiassú (no bairro Perdizes), a Trattoria Itália, e terminou no Bar do Alemão (boteco que eu frequento até hoje, perto do Parque Antártica) com a participação do Paulinho Boca de Cantor. Gravei no meu Lp lançado pela RCA , em 1986.
“Minha Nega” teve um primeiro registro no disco “Adoniran Barbosa-Documento Inédito”, do estúdio Eldorado, produzido por Aluizio Falcão e José Nogueira Neto, com o Adoniran cantando sem acompanhamento, pois ainda não tinhamos finalizado a música. Nesse disco tem uma participação do Adoniran no programa Fino da Bossa, em 1965, onde ele canta e conversa com Elis Regina.
O mais paulista dos compositores brasileiros tinha muito orgulho de ter ganhado um concurso de músicas de carnaval no Rio de Janeiro, em 1965, com o samba “Trem das Onze”.
Dizia ser muito influenciado pelo Tango. Gostava de pastéis. Foi casado com D.Mathilde, sua companheira por quarenta anos. Filava cigarros (preferia os da marca Carlton, que chamava de carletão). Homenageou seu cachorro Peteleco, dando-lhe parceria em alguns sambas. Chamava bebida de mé. Era Corinthiano.
A maioria dos seus sucessos, fez “com ele mesmo”. Foi parceiro de Vinicius de Moraes por correspondência (Araci de Almeida recebeu uma carta do poeta, com os versos que ela pediu ao Adoniran que musicasse, resultando na linda “Bom dia Tristeza).
Tem uma filha que mora no Rio de Janeiro, Maria Helena, que eu tive o prazer de conhecer num show em que eu homenageava o pai dela e o Nelson Cavaquinho.
Seu primeiro grande sucesso foi “Saudosa Maloca”, com os Demônios da Garoa, em 1955, responsáveis também pelo estouro de “Trem da Onze”. Essas duas músicas também têm interpretações primorosas de João Gilberto e Gal Costa respectivamente.
Gravou pela primeira vez em 1935, em 78 rotações, um samba de sua autoria de parceria com José Niccolini, “Agora pode chorar”.
Seu último Lp, produzido por Fernando Faro, foi gravado no Rio de Janeiro, em 1980. Eu tive o prazer de participar, ao lado de grandes feras da música brasileira. Elis Regina dá uma interpretação definitiva para “Tiro ao Álvaro”.Clara Nunes não deixou por menos em “Iracema”. O conjunto Talismã, grupo que acompanhava sempre o Adoniran, cantou “O casamento do Moacyr”. Clementina de Jesus, Roberto Ribeiro, Gonzaguinha, Djavan, Conjunto Nosso Samba, Vânia Carvalho e MPB4, completavam o time desse disco emocionante.
Adoniran nos deixou no dia 23 de novembro de 1982. Sua música continua mais viva do que nunca.

(Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro)